Flávio promete “tesouraço” e manter programas sociais, mas não cita o Pé-de-Meia. Veja se o benefício pode acabar e o que o estudante deve fazer agora.
O resultado do primeiro turno caiu como uma bomba em muita casa que depende do Pé-de-Meia. Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente, com cerca de 47% dos votos, contra 45% de Lula (PT), e os dois voltam às urnas em 25 de outubro. Aí, claro, a pergunta que mais aparece no grupo da escola é uma só: se o Flávio ganhar, o Pé-de-Meia acaba?
Vamos com calma, porque tem muita coisa circulando que não bate com os documentos. E quem trabalha com educação sabe: boato sobre benefício estudantil espalha mais rápido que nota de prova.
Resposta curta: não existe, até hoje (5 de outubro de 2026), promessa pública de Flávio Bolsonaro de acabar com o Pé-de-Meia. O plano de governo dele promete um “tesouraço” nos gastos e, ao mesmo tempo, diz que vai manter os programas sociais existentes, mas não cita o Pé-de-Meia pelo nome. Ou seja: o programa não tem fim anunciado, mas também não tem garantia escrita de continuidade num eventual governo Flávio. Ele é previsto em lei e só acaba de vez com mudança aprovada no Congresso, mas pode encolher pelo caminho do orçamento.
Nas próximas seções, você vai entender o que o candidato disse de fato, onde mora o risco real e o que o estudante deve fazer agora para não perder nenhuma parcela.
O que é o Pé-de-Meia e quanto ele paga
O Pé-de-Meia é uma poupança educacional do governo federal para alunos do ensino médio público de famílias inscritas no CadÚnico. Ele foi criado pela Lei nº 14.818, de 16 de janeiro de 2024, e regulamentado pelo Decreto nº 11.901 do mesmo mês. A lógica é simples: o jovem recebe para continuar na escola, e não para largar os estudos e ir trabalhar cedo.

Podem participar alunos de 14 a 24 anos do ensino regular e de 19 a 24 anos da EJA, de famílias com renda por pessoa de até meio salário mínimo, segundo o Serasa. A frequência mínima exigida é de 80%.
| Incentivo | Valor | Quando é pago | Total nos 3 anos |
|---|---|---|---|
| Matrícula | R$ 200 | Uma vez por ano, no início | R$ 600 |
| Frequência | 9 parcelas de R$ 200 | Mensal, com 80% de presença | R$ 5.400 |
| Conclusão do ano | R$ 1.000 | Fica na poupança; saque só após a formatura | R$ 3.000 |
| Enem | R$ 200 | Uma vez, ao fazer a prova | R$ 200 |
| Total | R$ 9.200 |
Na EJA, as parcelas de frequência são de R$ 225. Desde 2024, o governo estima ter atendido cerca de 7,2 milhões de alunos, algo como 56% de todo o ensino médio, com investimento de R$ 21 bilhões. O custo anual gira em torno de R$ 12 bilhões, e o projeto de Orçamento de 2027 já reserva R$ 10,5 bilhões para o programa.
Esse último número é importante, viu? O Orçamento de 2027 foi enviado pelo atual governo, mas quem vai executá-lo é o presidente eleito agora em outubro.
O que Flávio Bolsonaro disse sobre cortes e programas sociais
Flávio prometeu cortar gastos e, no mesmo documento, manter alguns programas sociais. É essa combinação que gera a dúvida.
O plano registrado no TSE se chama “Para o Brasil Vencer o Atraso” e tem 76 páginas. A bandeira econômica é o tal “tesouraço”: corte de pelo menos dez ministérios, redução de cargos e de despesas administrativas e revisão de normas, segundo a análise do documento feita pela Fundação Perseu Abramo. O objetivo declarado é reduzir impostos, mas tambem reduzir o peso de gastar com programas sociais,e abordagem mais liberal e com menos atuação do estado.
E o Pé-de-Meia? Aí está o ponto cego. O PT acusa o plano de não citar o programa nem garantir sua continuidade. Na educação, o documento prioriza outras frentes, conforme resumo da BBC News Brasil:
- alfabetização pelo método fônico;
- ampliação das escolas cívico-militares;
- gestão escolar baseada em resultados;
- vouchers educacionais ( seriam pagas faculdades particulares aos alunos, mas isso nao esta nada descrito ou devidamente explicado);
- conteúdos de economia digital e inteligência artificial.
Já o plano de Lula cita o Pé-de-Meia com todas as letras e promete fortalecê-lo, com a meta de estendê-lo a todo o ensino médio público.
| Ponto | Lula (PT) | Flávio Bolsonaro (PL) |
|---|---|---|
| Cita o Pé-de-Meia no plano? | Sim, para fortalecer | Não, pelo nome |
| Promessa geral sobre programas sociais | Ampliar | Manter, com correções e combate a fraudes |
| Regra de gastos | Manter o arcabouço fiscal | “Tesouraço” e nova regra para os Três Poderes |
| Prioridades na educação | Tempo integral, creches, Institutos Federais | Método fônico, cívico-militares, vouchers |
Resumo honesto: quem diz que “Flávio já prometeu acabar com o Pé-de-Meia” está indo além do que o candidato falou. Quem diz que “o programa está garantido” também está.
O Pé-de-Meia pode acabar? Onde está o risco de verdade
Acabar de uma vez é difícil; encolher aos poucos é bem mais fácil. Para entender por quê, olhe para três peças: a lei, o orçamento e o Congresso.
1. A lei protege a existência, não o tamanho. Como o programa foi criado por lei, um presidente não consegue extingui-lo sozinho, com uma canetada. Precisaria aprovar outra lei (ou editar uma medida provisória que o Congresso confirme). Mas atenção: regras como público atendido, calendário e valores dependem muito de decreto e portaria do MEC. Ajustar esses detalhes não exige votação.
2. O orçamento é o ponto fraco. O Pé-de-Meia já teve problema com isso. Em 2025, o TCU bloqueou R$ 6 bilhõesporque o dinheiro passava por fundos fora do Orçamento da União. Para resolver, o governo incluiu o programa no piso constitucional da educação. Desde então, ele disputa espaço com outras despesas do MEC. Num cenário de “tesouraço”, é justamente aí que a pressão aparece: ninguém precisa extinguir o programa se puder apertar o cinto dele.
E tem um detalhe que os críticos de Flávio vêm destacando. Segundo análise do site Outras Palavras, o plano do PL fala em eliminar os pisos constitucionais de saúde e educação. Se isso avançar, o Pé-de-Meia perde uma das suas proteções orçamentárias. A campanha, por outro lado, sustenta que manterá os programas sociais.
3. O Congresso decide muita coisa. Qualquer extinção formal ou mudança nos pisos passa pelo Legislativo. E o bolsonarismo saiu forte das urnas também nas disputas para deputado e senador, segundo o Observador. Ao mesmo tempo, cortar um benefício que chega a milhões de famílias tem custo político alto para qualquer parlamentar.
O que pesa a favor do programa: as evidências. Um estudo do Centro de Evidências da Educação Integral (Insper, Instituto Sonho Grande e Instituto Natura) estimou que a evasão no ensino médio entre alunos vulneráveis cairia de 26,4% para 19,9% com o Pé-de-Meia. Em bom português: de cada quatro jovens que iam largar a escola, um fica. O Insper também apontou custo-benefício positivo. Vale a ressalva honesta: é uma avaliação ex-ante, feita por simulação, porque o efeito real só poderá ser medido depois que a primeira turma completar os três anos.
Pra quem é da área, isso não é pouca coisa. Um governo que fala em “corrigir distorções” pode muito bem mudar o desenho do programa em vez de cortá-lo. O próprio estudo sugere, por exemplo, concentrar mais dinheiro no 3º ano, quando o risco de abandono é maior.
Cenários para o Pé-de-Meia depois de 25 de outubro
Se Lula for reeleito, o caminho anunciado é ampliar o programa. Se Flávio vencer, há quatro desfechos possíveis, e cada um deixa sinais claros antes de acontecer.
| Cenário | O que mudaria para o aluno | O que precisaria acontecer | Sinal de alerta |
|---|---|---|---|
| Manutenção como está | Nada | Novo governo cumprir o compromisso genérico de manter programas sociais | Ministro da Educação citar o Pé-de-Meia nos primeiros discursos |
| Manutenção com “ajustes” | Regras mais duras de frequência ou renda, revisão do CadÚnico, mudança no calendário | Decreto ou portaria do MEC | Anúncio de “pente-fino” ou “revisão de distorções” |
| Encolhimento silencioso | Menos vagas, atrasos, valores congelados | Orçamento de 2027 aprovado com menos que os R$ 10,5 bilhões previstos, ou bloqueios ao longo do ano | Corte na votação do Orçamento no Congresso, em dezembro |
| Extinção formal | Fim dos novos pagamentos | Nova lei ou medida provisória aprovada pelo Congresso | Projeto de lei revogando a Lei 14.818/2024 |
Aqui entra a imagem 2 (infográfico dos cenários).
Na leitura de quem acompanha política educacional há tempo, os dois cenários do meio são os mais prováveis em qualquer governo que priorize corte de gastos. A extinção formal teria custo político enorme e esbarra em evidência favorável. Mas a palavra-chave é “sinal”: fique de olho na votação do Orçamento de 2027 e nas primeiras portarias do MEC em janeiro.
O que o estudante deve fazer agora
Nada muda nos pagamentos de 2026: o calendário segue valendo até dezembro, seja quem for eleito, porque o novo presidente só toma posse em 1º de janeiro de 2027. Então a melhor estratégia é garantir cada real a que você tem direito.
- Mantenha a frequência acima de 80%. É a regra que mais derruba parcela. Uma semana de falta seguida já pode fazer estrago.
- Confira o CadÚnico da família. Dados desatualizados bloqueiam o benefício. Se mudou renda, endereço ou alguém da casa, atualize no CRAS.
- Anote as próximas datas. Segundo o Blog do Vestibular, faltam três parcelas em 2026: de 19 a 26 de outubro, de 23 a 30 de novembro e de 21 a 28 de dezembro.
- Faça o Enem. São R$ 200 a mais, pagos uma única vez.
- Acompanhe pelo Caixa Tem e pelo gov.br. E desconfie de links no WhatsApp prometendo “liberar” ou “salvar” o seu Pé-de-Meia antes do fim do programa. Em época de eleição, golpe com nome de benefício dispara.
E o dinheiro que já está na poupança? Os R$ 1.000 de conclusão ficam numa conta aberta em nome do aluno, que só pode sacar após a formatura. Mudanças futuras costumam valer para frente; tirar um valor já depositado na conta do estudante seria muito difícil de sustentar juridicamente. Ainda assim, nenhum candidato falou especificamente sobre isso.
Perguntas frequentes
O Pé-de-Meia vai acabar em 2027?
Não há decisão nem anúncio de fim do programa. O projeto de Orçamento de 2027 prevê R$ 10,5 bilhões para o Pé-de-Meia, mas o valor final depende da votação no Congresso e das prioridades de quem vencer a eleição.
Flávio Bolsonaro prometeu acabar com o Pé-de-Meia?
Não. O plano de governo de Flávio promete um “tesouraço” nos gastos e diz que vai manter os programas sociais existentes, mas não cita o Pé-de-Meia pelo nome. Por isso, não há promessa de fim, nem garantia escrita de continuidade.
O presidente pode acabar com o Pé-de-Meia sozinho?
Não de forma definitiva. O programa foi criado pela Lei nº 14.818/2024, e sua extinção exige outra lei ou medida provisória aprovada pelo Congresso. O presidente, porém, pode mudar regras por decreto e reduzir o orçamento.
Quanto o Pé-de-Meia paga em 2026?
O aluno do ensino regular recebe R$ 200 de matrícula, nove parcelas de R$ 200 por frequência, R$ 1.000 por ano concluído e R$ 200 pelo Enem. Somando os três anos do ensino médio, o total pode chegar a R$ 9.200.
Quando caem as próximas parcelas do Pé-de-Meia?
As próximas parcelas de 2026 caem entre 19 e 26 de outubro, 23 e 30 de novembro e 21 e 28 de dezembro, conforme o mês de nascimento do aluno. Esses pagamentos não são afetados pelo resultado da eleição.
Conclusão
O Pé-de-Meia não tem data para acabar, mas também não tem a vida garantida. Num eventual governo Flávio Bolsonaro, o risco mais concreto não é uma extinção de um dia para o outro, e sim um programa mais enxuto, com regras mais duras e menos dinheiro no Orçamento.
Pra quem está no ensino médio agora, o recado é direto: frequência em dia, CadÚnico atualizado e olho no calendário. E, pra quem vai votar no dia 25, vale ler os planos de governo com calma, porque educação é daqueles temas em que a diferença aparece anos depois.
Vamos atualizar este texto assim que o eleito e a nova equipe do MEC falarem sobre o programa.
Fontes consultadas
- BBC News Brasil, via O Povo: diferenças entre os programas de Lula e Flávio
- InfoMoney: Flávio pretende manter programas sociais e cortar impostos
- O Tempo: plano promete “tesouraço” e amplia programas sem detalhar custos
- Fundação Perseu Abramo: análise do programa do PL
- Brasil 247: PT critica ausência do Pé-de-Meia no plano
- Outras Palavras: análise do plano sobre pisos constitucionais
- Observador: resultado do primeiro turno
- CNN Brasil: Pé-de-Meia entra no Orçamento após impasse com o TCU
- Sinfrerj: PLOA 2027 prevê R$ 10,5 bilhões para o programa
- Poder360: estudo sobre redução da evasão
- Insper: livro de avaliação do Pé-de-Meia
- Money Times: alcance e investimento do programa
- Blog do Vestibular: regras e calendário 2026
- Serasa: valores e requisitos